O LIVRO DO DIA NTR “ACIDENTES” DE HÉLIA CORREIA

Written by on 22/11/2020

Chancela Relógio D´Água.

Acidentes, de Hélia Correia, obra que reúne poemas da autora de Lillias Fraser e Adoecer.

«ESMOLA

I

Lançai‑me
uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi‑a
de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés
do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo‑a
murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre. […]»

II
Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.
Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema.


III
Pequenas, misteriosas criaturas
que não nascem do mundo natural,
que são obra dos homens,
sendo os homens a obra delas,
vejo‑as hoje mais do que escorraçadas:
submetidas.
Elas que eram solenes e risonhas,
tanto mais necessárias quanto inúteis,
e tanto mais inúteis quanto pura
exaltação do texto, essas palavras
rolam humildemente pelo chão.
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo a fome.

DISTRACÇÃO
I
Mantiveram os dentes aguçados,
duros, resistentes, como que
inorgânicos,
como se pertencessem a eles próprios
e não à ossatura do
indivíduo.
Não reparámos naqueles dentes. Aliás,
tudo ignorámos a respeito deles.
Eram talvez, apenas, uma mancha
na escuridão dos bosques, uma mancha
de coisa apodrecida, de uma coisa
que foi medonha por alguns instantes,
que foi medonha e que se
dissipou.
Como crianças, pondo as mãos nos olhos
e assentando rosto contra o estofo
da cadeira da mãe,
como crianças
que acordam no momento em que o terror
do sonho as mataria,
inteiramente inábeis para qualquer
defesa verdadeira,
como crianças, vemos os detalhes
sem suspeitarmos do que neles se oculta,
e assim voamos
pelas altas galerias de uma história
fantasiosa, de uma história de justiça,
tão desejável que a tomamos
por real.


II
E colhemos os frutos, e cantámos,
e tivemos quezílias e lançámos
sobre todos a lei e as intenções
benévolas da lei.
Como crianças,
já capazes de lembrar,
mas ainda incapazes de
prever,
dançamos dentro da espiral do tempo,
subimos e caímos, tão seguros
de sermos os amados, sim, de sermos
nós os eleitos para porta-vozes
de uma bondade que não é
humana,
dessa coisa a que chamam utopia
porque não tem lugar na natureza,
e que, por falta de raiz, não dura
muito mais que um insecto luminoso.
E esquecemo‑nos deles
completamente.
Como crianças que na noite vêem
só o que lá não está e assim se enganam
quanto às rotas do perigo,
assinalámos certas armadilhas,
certos abatimentos da beleza,
as pequenas disputas que levavam
o corpo camponês, aquele pé nómada
que a cidade tratara de ocultar,
a surgir novamente, a dar aos gestos
uma festiva, obscena eloquência.


E a terra cintilava sob os coices
ligeiros das mulheres.
Cintilava, feliz pelo regresso
daqueles modos rurais.
E era tudo.

Hélia Correia nasceu em Lisboa. Licenciada em Filologia Românica, foi professora do ensino secundário. Poetisa e dramaturga, foi enquanto ficcionista que Hélia Correia se revelou como um dos nomes mais importantes e originais surgidos durante a década de 80, ao publicar, em 1981, O Separar das Águas. Seguiram-se romances como Montedemo, Insânia, A Casa Eterna (Prémio Máxima de Literatura, 2000), Lillias Fraser (Prémio de Ficção do PEN Clube, 2001, e Prémio D. Dinis, 2002), Bastardia (Prémio Máxima de Literatura, 2006), e Adoecer (Prémio da Fundação Inês de Castro, 2010). Na poesia, tem uma vasta colaboração em antologias e jornais e publicou obras como A Pequena Morte/Esse Eterno Canto (em díptico com Jaime Rocha) e Apodera-te de Mim. A sua escrita para teatro tem privilegiado os clássicos gregos. Destaca-se Perdição — Exercício sobre Antígona, O Rancor — Exercício sobre Helena, e Desmesura — Exercício com Medeia. Para a infância, salienta-se os livros da colecção Mopsos, o Pequeno Grego: O Ouro de Delfos e A Coroa de Olímpia. Destaque também para as suas versões das obras de Shakespeare, Sonho de Uma Noite de Verão — Versão Infantil e A Ilha Encantada — Versão para Jovens de A Tempestade.


Current track

Title

Artist