O BANDO DE SURUNYO “CANTOS DO FOGO E DO GELO” 18 OUTUBRO 16H30

Written by on 17/10/2020


CONVENTO DE SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA

LUZ E SOMBRA NA MÚSICA DA EUROPA HUMANISTA

O programa “Cantos do fogo e do gelo”,  apresentado por O Bando de Surunyo, na Temporada Música em São Roque, percorre alguns dos mais importantes géneros musicais cultivados em Itália e na Península Ibérica nos séculos XVI e XVII. O Bando de Surunyo é um ensemble especializado na interpretação de música dessa época histórica, ainda que o projeto relacione música tanto de aquém como de além-fronteiras. O objetivo do espetáculo é proporcionar ao público, através da música e da poesia, o contacto com a pluralidade, ecletismo e riqueza do imaginário do renascimento e barroco europeu.

O ensemble é a frente interpretativa e laboratorial de um projeto multidisciplinar que incide sobre repertório inédito albergado por fontes portuguesas, apresentando em quase todos os seus concertos obras inéditas em primeira audição moderna.


ELEMENTOS

HUGO SANCHES | DIREÇÃO

Ana Vieira Leite SOPRANO

Raquel Mendes SOPRANO

Laura Lopes MEZZO-SOPRANO

Carlos Meireles TENOR

Sérgio Ramos BARÍTONO

Maria Bayley HARPA IBÉRICA DE DUAS ORDENS

Xurxo Varela VIOLA DA GAMBA

PROGRAMA

El fuego MATEO FLECHA EL VIEJO (1481-1553)

Pater peccavi DUARTE LOBO (1565-1646)

Aquam quam ego dabo MANUEL CARDOSO (1566-1650)

Non son in queste rive CLAUDIO MONTEVERDI (1567- 1643)

Chi’o t’ami CLAUDIO MONTEVERDI

Pulchra es CLAUDIO MONTEVERDI

Clamabat autem PEDRO ESCOBAR (1465-1535)

Todo quanto pudo dar FRANCISCO GUERRERO (1528- 1599)

Dexad al niño que llore ANÓNIMO (MOSTEIRO DE SANTA CRUZ DE COIMBRA, C.1650)

Apuestan zagales dos FRANCISCO GUERRERO (1528- 1599)

Voi pur da me partite CLAUDIO MONTEVERDI (1567- 1643)

Zefiro torna e’l bel tempo rimena CLAUDIO MONTEVERDI

A dio Florida Bella CLAUDIO MONTEVERDI

DESCRIÇÃO BREVE DO PROGRAMA

Durante os séculos XVI e XVII, a Europa assistiu a profundas mudanças no plano filosófico, religioso e cultural que alteraram o modo como o homem se posicionava no universo, como se relacionava com a realidade e como se via a si próprio. O edifício epistemológico das sete artes liberais que predominara no Ocidente durante mais de um milénio, desmoronava-se: a especulação cedia lugar à observação e à experiência; o inteligível era deposto pelo sensível. Os sentidos e as emoções substituíam o intelecto enquanto interface privilegiada entre o homem e o mundo. As narrativas poéticas, políticas e religiosas viravam-se para o ‘pathos’ da antiga arte da retórica, tendo como principal alvo as emoções dos destinatários, procurando ilustrá-las, estimulá-las e potenciá-las.

O diversificado mosaico deste novo mundo em transformação repercutiu-se em todas as manifestações culturais e a música não fugiu à regra. Fosse em contexto sacro, profano, cortesão ou doméstico, os compositores procuravam através do som, nas suas múltiplas possibilidades de tratamento rítmico, melódico, harmónico e tímbrico, ilustrar e potenciar o conteúdo poético da palavra, definindo-se assim — nas palavras de Claudio Monteverdi — um novo objetivo para a música: “movere gli affetti”, mover os afetos.

“Cantos do fogo e do gelo” percorre alguns dos mais importantes géneros musicais cultivados em Itália e na Península Ibérica nos séculos XVI e XVII. Conferimos um particular destaque a obras nas quais a mulher é a protagonista principal, incorporando diferentes facetas da condição humana: resiliência, empatia, sabedoria, compaixão, ternura e fé. O eixo estruturante de todo o programa é um dos traços matriciais da produção cultural do Quinhentos e Seiscentos: a apropriação estética da antítese. A coexistência e convivência dos opostos é utilizada pela música tanto ao nível do conteúdo poético, como dos processos e técnicas que os compositores utilizam ao serviço deste. O ‘velho’ estilo de composição, desenvolvido no seio da arte da polifonia vocal, une-se ao ‘stile nuovo’ e à ‘seconda pratica’, perseguindo conjuntamente o novo ideal retórico que a música agora para si reivindicava: seduzir, comover e impressionar o ouvinte. O resultado é, pela sua pluralidade e combinação de elementos conservadores e inovadores, um dos períodos mais empolgantes da história da música ocidental, eloquentemente representado pelas obras que para este programa selecionámos.

DADOS BIOGRÁFICOS DO GRUPO

O Bando de Surunyo é um ensemble especializado na interpretação de música dos séculos XVI e XVII. O nome é retirado de um vilancico seiscentista português e significa “bando de estorninhos”. O ensemble é a frente interpretativa e laboratorial de um projecto multidisciplinar que incide particularmente sobre repertório inédito albergado por fontes portuguesas, apresentando em quase todos os seus concertos obras inéditas em primeira audição moderna. O projecto abrange, porém, música tanto de aquém como de além-fronteiras, tendo como objetivo proporcionar ao público, através da música e da poesia, o contacto com a pluralidade, ecletismo e riqueza do pensamento e imaginário do renascimento e barroco europeu.

Os nossos concertos são preparados sobre uma rigorosa base de investigação musicológica e no estudo aprofundado do contexto histórico e cultural da música que interpretamos. Todas as obras são preparadas diretamente a partir dos manuscritos ou impressos originais (pelo diretor do ensemble) e interpretadas utilizando instrumentos e práticas interpretativas historicamente informadas.

A íntima relação entre som e palavra que emerge na música na transição do Quinhentos para o Seiscentos é o eixo central da abordagem d’O Bando de Surunyo ao estudo e interpretação do repertório. O som colocava-se então ao serviço do texto, veiculando, ilustrando e potenciado o seu conteúdo poético e afetivo. A transmissão eficaz e eloquente desse conteúdo nas suas múltiplas leituras e funções — literal, teatral, histórica, simbólica, religiosa, política e filosófica — constitui a base para a construção de uma conceção interpretativa que persegue hoje o mesmo objetivo da música de então: divertir e comover o público através da palavra, do gesto e do som. Todo o projecto assume pois um alcance estético e comunicativo alargado onde, fazendo uso de práticas interpretativas e sonoridades históricas, se procura criar um objeto artístico pertinente, significativo e impactante para o público de hoje.

O Bando de Surunyo é dirigido por Hugo Sanches, doutorado com distinção e louvor em Estudos Musicais pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, mestre e licenciado em Interpretação Musical (música antiga – alaúde) pela Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE, Porto), e pós-graduado em psicologia da música pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade do Porto. Reparte a sua atividade entre a interpretação, o ensino e a investigação, especializando-se em música dos séculos XVI e XVII nos domínios tanto da prática interpretativa, como da teoria e pensamento estético e filosófico. É professor no Curso de Música Antiga da ESMAE e na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. É ainda investigador do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Faculdade de Letras da Universidade.


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