AS MINHAS HISTÓRIAS NAS “ONDAS DO ÉTER” CRÓNICA SEMANAL DE ALICE VIEIRA

Written by on 03/10/2020

FELICIDADE

Estava a sair de uma consulta e apanhei um táxi para casa.
Trânsito absolutamente caótico. Engarrafamentos por todo o
lado, ambulâncias, carros da polícia e o taxista a falar de coisas
terríveis que lhe acontecem todos os dias.


“Ah”, exclama de repente “mas também há coisas boas. Aqui há
tempos, numa passagem de ano, entrou-me aí uma senhora com
uma criança. Eu olhei para ela e vi que estava a chorar. Eu não
disse nada mas, daí a uns minutos, não me contive: “a senhora
desculpe, mas se eu a puder ajudar…”


E, pelo meio do engarrafamento, a história continuou. A
senhora, sempre a chorar contou-lhe que há umas horas o
marido tinha chegado a casa e tinha dito “enquanto tomo
duche, arranja uma mala com as minhas coisas que eu vou sair
de casa” . E a senhora ia agora com o filho, para a passagem de
ano em casa dos pais, e ainda não tinha tido coragem de lhes
dizer o que acontecera.


“Que é que eu havia de lhe dizer?”, continua ele,

“ó minhasenhora , vai ver que ele se arrepende e ainda lhe aparece esta
noite para festejarem todos.”


Eu julgava que a história tinha acabado mas não : muitos meses
depois a senhora volta a entrar no táxi, reconheceu-o e sorriu.
“O senhor é vidente”, perguntou-lhe ela, “então não é que
mesmo quase à meia noite desse fim de ano batem à porta e era
o meu marido que voltava, a dizer que queria estar com a
família.”

Rimos muito, olha que bom.


“Então não é?”, disse ele, “o importante é sermos felizes, nem
que seja por um minuto, ou por um dia.”


Ia eu já a sair, e ele concluiu: “coitada, segundo me contou, ele
saiu de casa no dia seguinte, mas pronto, ela teve umas horas de
felicidade e isso é que interessa”.


Nada como um taxista filósofo.

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