“QUARTOS” DE ENDA WALSH PELOS ARTISTAS UNIDOS 30 SETEMBRO A 7 NOVEMBRO LISBOA

Written by on 30/09/2020

No Teatro da Politécnica de 30 de Setembro a 7 de Novembro
3ª a 6ª às 19h00, 20h00, 21h00 | Sáb às 16h00, 17H00, 18h00, 19h00, 20h00 e 21h00

E foi então que comecei a conversar com o meu quarto – inventando histórias para ursos e bonecas – com a escuridão a ameaçar lá fora.
(Enda Walsh, Quarto da Rapariga)

A partir de Quarto 303 de 2012, Enda Walsh tem vindo a escrever vários Quartos apresentados como instalações teatrais quer no Festival de Galway quer em Nova Iorque. Apresentamo-los agora aqui, neste pós-confinamento,  A mesma palavra luxuriante, herdeira de Beckett ou Joyce, a mesma claustrofobia ( como em Acamarrados ou A Farsa da Rua W), um mundo pobre de onde não se consegue escapar, E, no entanto, há quem se tenha escapado. Um autor maior, um teatro singular.
JSM

Um homem velho sozinho, à espera, à medida que o tempo se aproxima do fim. A verdade esquecida. Morto. Completamente.

Com seis anos, uma rapariga deixa o seu quarto e família e anda. Sem parar. Até agora.

Quando era criança (digamos com seis anos) era muito bom a ler a atmosfera de uma divisão, com ou sem pessoas. Os traços de uma discussão terrível que acabara há meia hora, eram ainda visíveis para mim no ar entre os meus pais enquanto viam TV. E ficava também electricidade estática no quarto das traseiras, produzida pelo meu irmão mais velho e as suas muitas namoradas. Quando o meu pai estava no trabalho, sentava-me sozinho no quarto da frente da casa e sentia a sua ansiedade, sentia o seu stress diário a partir da “sua cadeira”. Numa casa de oito pessoas, há uma quantidade magnífica de barulho e trânsito e drama. Mas quando penso na minha infância lembro-me frenquentemente de quartos vazios, estes lugares naturezas-mortas onde algo acabou de acontecer. Mais velho, e até hoje, gusto de estar sozinho num quarto onde nunca estive antes. E é bom estar no silêncio e olhar para as coisas neste quarto – sentir a sua atmosfera, imaginar as suas histórias. Ao sentar-me ali, quero que o quarto fale comigo e me conte os seus segredos.
(Enda Walsh)

Ficha artísitica:
Encenação de Jorge Silva Melo
Tradução de Eduardo Calheiros Figueiredo
Vozes de Américo Silva e Vânia Rodrigues
Cenografia de Rita Lopes Alves
Luz de Pedro Domingos
Som de André Pires

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Locais, datas e horários:
Teatro da Politécnica, Lisboa
30 de setembro a 7 de novembro de 2020
de terça a sexta às 19h, 20h e 21h
sábado às 16h, 17h, 18h, 19h, 20h e 21h
Duração: 45 minutos
M/12

No pós-confinamento, os Artistas Unidos levam à Politécnica ‘Quartos’, de Enda Walsh, sobre personagens enclausuradas que não sabem muito bem como usar “a porta de saída”. Conversa com o encenador Jorge Silva Melo.

“E era como se sentisse a vertigem do andar de baixo – como se o pequeno mundo que construí no meu quarto fosse sucumbir não tardaria muito ao bege terrível que envolvia o resto da casa. Com esta ansiedade, vomitei muito naquele pequeno tapete. Nesse mesmo estado – o meu cérebro vestiu-me devidamente para a escuridão lá fora.”

Depois de passarmos por essa experiência semi-apocalíptica que foram os três meses de confinamento forçado pela crise pandémica, estas palavras de Enda Walsh, escritas em 2015, arrepiam de tão certeiras. Na verdade, boa parte da obra do dramaturgo irlandês reverbera agora de uma forma tremendamente reconhecível: são peças sobre pessoas enclausuradas entre quatro paredes (paredes que parecem mesmo ter ouvidos), a tentar digerir a solidão e o desalento, o desespero e os dramas domésticos. “O meu país é este quarto, a cidade, este colchão, o lar, a minha cabeça” – como olhar para isto e não pensar em 2020?

“Enda sempre tratou disto: personagens fechadas em casa, que não se autorizam à liberdade, confinadas, ‘acamarradas’”, diz Jorge Silva Melo, que volta a encenar o autor e cúmplice de longa data na nova criação dos Artistas Unidos, Quartos, para ver no Teatro da Politécnica, em Lisboa, a partir desta quarta-feira e até 7 de Novembro. “A piada nos meios teatrais irlandeses, quando surgiu a pandemia, era mesmo esta: ‘não me digam que o Enda Walsh vai ser obrigado agora a escrever sobre pessoas fechadas em casa!?’”

A partir de Quarto 303 (2012), Enda Walsh tem vindo a escrever várias peças apresentadas como instalações teatrais. Até ao momento, são seis Quartos, seis monólogos (todos eles publicados e traduzidos na colecção Livrinhos de Teatro), sem intérpretes em cena. Vozes gravadas contam-nos o que se passa dentro daquelas divisórias, assombradas por uma aura beckettiana. Durante o confinamento, Jorge Silva Melo decidiu que levaria a palco duas peças desta série: Quarto 303, a única que tinha lido pré-Covid, e Quarto da Rapariga. “Amigos meus, o Camané e a Mariana [Maurício], que tinham visto a produção em Nova Iorque, insistiam que nós devíamos fazer os Quartos”, recorda o encenador. “Lemos os seis que existiam e achámos possível fazer dois. Só dois, como quando Enda arrancou com esta série. Soube que em Setembro ele terminou uma sétima, Vestuário. Vai mandar-ma daqui a dias, está a marinar.”

Ao contrário do que possa parecer, não foi um processo indolor conceber uma peça sem intérpretes em cena. “Não é simples. Ensaios separados entre técnica e actores, ensaios com actores em minha casa, ensaios técnicos no teatro sem actores… E há aqui uma personagem essencial, o sonoplasta André Pires, que gravou, espacializou, trabalhou o som das duas peças de forma admirável”, assinala Jorge Silva Melo. Outro contributo central foi o da cenógrafa Rita Lopes Alves, nestas peças-instalação que “retêm uma marca do que aconteceu no seu interior”, como escreveu a jornalista Sarah Hemming no Financial Times. “A Rita sempre se encontrou bem com o mundo de Enda. Aqui foi desenvolver o belíssimo cenário que tinha feito para Acamarrados [estreado em 2008]. Uma cama, coisas de pobres.”

Essa precariedade – material, emocional, física – está profundamente incrustada na obra de Enda Walsh, que tão bem captura a lassidão, a desesperança e a alienação da classe trabalhadora. Para Jorge Silva Melo, isso é cada vez mais raro no teatro. “Ele é mesmo único e, nesse aspecto, encontra bem gente que muito amei nos anos 60, como Shelagh Delaney ou Joan Littlewood, a maior das criadoras teatrais que jamais vi. Só que ele consegue juntar a ressaca das noites de cerveja e suor a uma visão do mundo grotesca, vulgar. Realmente a sombra de um subproletariado confinado em casa, quando muito indo até à casa de apostas ali da rua.” 

Também por isso, estes quartos acabam por ser, simultaneamente, refúgios e prisões. “Em Enda Walsh, as duas palavras equivalem-se. Para ele, vivemos emparedados, acamarrados, com uma porta de saída que não usamos; não sabemos e não queremos libertar-nos”, observa Jorge Silva Melo. “Há aquela famosa pergunta: ‘o que se passou quando Nora –  de A Casa das Bonecas, de Ibsen – saiu de casa?’ Em Quartos é: o que ficou quando as pessoas se foram embora?’ Roupa por lavar, bonecos no chão, sombras, vozes. É dessa ‘desaparição’ que ele sempre falou.”

(via: timeout)


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