[There are no radio stations in the database]

    “POEMAS EM TEMPO DE PESTE” DE EUGÉNIO LISBOA

    Written by on 29/09/2020

    MONTRA DE LIVROS NTR.

    Poemas em Tempo de Peste não é só um livro de poemas, é uma aventura em que se fundem literatura e vida. Ah, mas fundem-se com um grande sentido lúdico e um melancólico langor, que tanto toca em Camões, Eliot ou Almada, como no sabor a paraíso de uma África que já foi, porque «o passado sempre conta / quando o vírus já desponta!»

    Merda para esta vida de paz,

    diria, se fosse escritor naturalista:

    porque, já agora, tanto me faz

    comer um bife ou simplesmente alpista.

    Com esta desembaraçada franqueza, o poeta Eugénio Lisboa enfrenta, desabafa, ri-se e faz-nos rir deste perigoso mundo em que um vírus nos pôs a viver. Poemas em Tempo de Peste não é só um livro de poemas, é uma aventura em que se fundem literatura e vida. Ah, mas fundem-se com um grande sentido lúdico e um melancólico langor, que tanto toca em Camões, Eliot ou Almada, como no sabor a paraíso de uma África que já foi, porque «o passado sempre conta / quando o vírus já desponta!»

    À mesa destes Poemas em Tempo de Peste, são chamados a sentar-se os grandes do mundo. De um Trump «fodido», diz Eugénio Lisboa, «Que chatice se ele ficasse / no governo e nos lixasse», para logo se espantar com a nossa presidente do Banco Central Europeu:

    A Senhora Christine Lagarde

    acha que os velhos vivem demais;

    pra que a economia se resguarde

    há que apressar os ritos finais.

    A política nacional merece outros mimos a Eugénio Lisboa. Como este aceno a um deputado:

    O Nuno Melo tem medo

    de tudo que não conhece

    e tornou-se, muito cedo,

    activo no Cê Dê Esse.

    Ou este mimo escatológico a um partido exuberante:

    Fala o CHEGA como bufa,

    não conhece outro falar:

    quando tenta uma chufa,

    fá-lo como a evacuar!

    Os Poemas em Tempo de Peste de Eugénio Lisboa tanto cantam o admirável Pinto da Costa em decassílabos (não murchos) «com umas rimas do caraças», como exaltam em redondilha maior o génio singular de Gonçalo M. Tavares:

    Ele diz coisas geniais

    e diz coisas pessoais,

    mas as coisas pessoais

    não são nunca geniais

    e as coisas geniais

    mais parecem de jograis!

    Poemas em Tempo de Peste não é só um livro, é a ressurreição da sátira, e é um reencontro da poesia com o riso libérrimo. Poesia clara que nos sacode da letargia destes dias e nos convida à plenitude da vida:

    Lixe-se a melancolia,

    refúgio de quem não luta,

    e combata-se, de dia,

    o vírus filho da puta!

    Lê-se com sofreguidão e gosto: em confinamento ou na rua, em silêncio ou em voz alta. Há quanto tempo já não lhe falavam de um livro assim? Chama-se Poemas em Tempo de Peste. Eugénio Lisboa é o seu autor.