“AO RUBRO” CELEBRAÇÃO 45 ANOS VIDA LITERÁRIA

Written by on 25/09/2020

ESCRITOR LUÍS FILIPE SARMENTO 26 Setembro Restaurante Zeno do Casino Estoril entre as 18 e as 20 horas.

Um encontro «Ao Rubro», a convite de Cristina Fernandes. A propósito do livro que reúne toda a poesia entre 1975 e 2020, editado pela Poética Edições. Nestes 45 anos, há pequenas histórias, episódios e um vasto anedotário que acompanharam a edição e a divulgação de todos os livros agora reunidos num só volume com cerca de 1200 páginas, de Luís Filipe Sarmento.

Nota biográfica:

Luís Filipe Sarmento nasceu, em Lisboa, a 12 de Outubro de 1956.
Estudou Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Jornalista, Escritor, Tradutor e Realizador de Televisão.
Alguns dos seus livros e textos encontram-se traduzidos em inglês, espanhol, francês, italiano, grego, árabe, mandarim, japonês, romeno, macedónio, croata, turco e russo.
Produziu e realizou a primeira experiência de Videolivro feita em Portugal no programa Acontece para a RTP (Radiotelevisão Portuguesa).
Membro do P.E.N. Club,
Membro da Associação Portuguesa de Escritores
Coordenador Internacional da Organization Mondial de Poétes (1994-1995)
Membro Internacional Comite of World Congress of Poets
Presidente da Associação Ibero-Americana de Escritores (1999-2000)
Coordenador para Portugal da World Poetry Modement.
Participou em mais de 100 festivais, congressos e feiras internacionais.

Do Autor :
A Idade do Fogo, 1975; Trilogia da Noite, 1978; Nuvens, 1979; Orquestras & Coreografias, 1987; Galeria de um Sonho Intranquilo, 1988; Fim de Paisagem , 1988; Fragmentos de Uma Conversa de Quarto, 1989; Ex posições, 1989; Boca barroca, 1990; Matinas Laudas Vésperas Completas , 1994; Tinturas Alquímicas, 1995; A Ocultação de Fernando Pessoa , a Desocultação de Pepe Dámaso, ensaio versão portuguesa e castelhana, Las Palmas, 1997; A Intimidade do Sono, 1998; Crónica da Vida Social dos Ocultistas, narrativa, 2000, 2007, 2015; Gramática das Constelações , 2012; Ser tudo de todas as Maneiras, ensaio e antologia da obra de Fernando Pessoa no Livro/Cd “Mensageiros”, Lisboa, 2012; Como Um Mau Filme Americano, narrativa, 2013; 40 Poemas 40 Pinturas (c/ Luís Vieira Baptista), 2015; Efeitos de Captura, 2015; Repetição da Diferença seguido de Casa dos Mundos Irrepetíveis, 2016; Gabinete de Curiosidades, 2017, 2018; KNK, 2019; Operação Ulisses, 2019, narrativa.

12.

A eficácia espiritual conduz a esse universo do questionamento permanente com variações sobre a vontade. É um percurso pleno de mutações de fé. As antinomias sincrónicas provocam instabilidades e nessa atmosfera de equilíbrios inconstantes lavram sensações que confluem inevitavelmente para uma predisposição criadora de qualquer objecto artístico. O corpo físico reage: a incontrolável velocidade do sangue, o tremor, o suor. Ao calor da ideia associa-se o calafrio da sua concretização. A origem faz deflagrar fragmentos de si e religa-os noutra dimensão da substância, autonomizando a expressão artística. A excitação acumulada transmuta o ser que sai em artista que viaja. O processo esténico obstaculiza cansaços e desistências. Donde a urgência espiritual da realização do objecto artístico antes do colapso físico. Poder-se-ia dizer que é um acto de amor, um estímulo místico, universal e pessoal. Um método alquimicamente flogístico. O calor resultante desta inflamação espiritual tem pouco a ver com convicções elaboradas a posteriori, mas com uma íntima inteireza prodigiosa. Deflagrações e destilações conduzem ao ouro inegociável da consciência da obra. A sua ética privada ilumina todos os seus pontos estéticos. Fala de si expondo-se ao observador. O que este subentende é um mistério vulgar que em nada altera o objecto que o estimula. Do nascimento à morte há um processo amplificado de renovação até ao esgotamento. O que fica terá sempre assinatura.

Luís Filipe Sarmento, «Rouge – utopie», 2020

23.

Em cada texto deixo-me levar para o outro lado da natureza, abraçando o sonho trépido que vai deixando escapar imagens por entre interstícios de lucidez que compõem a escrita minuto a minuto.

Corpo e alma, sem deuses que são o contrário de nada, no espaço habitado pelas imagens das formas que, por vezes, brumas de dúvidas desfocam.
Sopros internos folheiam pensamentos, que são aventuras indizíveis, que sobrevoam vedações de obstáculos que sussurram como vampiros contra a iluminação moderna da página.

Quebrada a parede das serpentes que sibilam, as cortinas opacas da censura social intimidante, oiço o gesto das teclas, momentaneamente acorrentadas à morte e agarradas à vida do texto, e disparo na cavalgada, como se fossem muitas numa só, revigorado por febres íntimas e olho para a face das palavras e contemplo uma longínqua paisagem de ideias rumorejando à beira de um palco ao qual julgam pertencer.

É um mundo que não existe e por isso é só meu sem a loquacidade de respostas imediatas porque pertence à íntima combustão que me consome e revivifica.
São os últimos momentos da respiração suspensa antes do ponto, antes do suspiro, antes do sorriso, antes do desespero do recomeço, antes da curiosidade que se segue à interrogação.

Não há pêndulos neste jogo, na eternidade da minha existência enquanto for eterna não há hesitações sobre o que escolhi ser no campo aberto da diferença ao espaço solar que me desperta.

Reconheço o rosto juvenil que me surpreende e alimenta a minha independência de tudo nesta utopia de reinventar a paixão depois do amor efémero e não esquecer que sou o resultado da respiração do cosmos que nada teme das sensações da voz que me seduz e me possui no acto de fazer escrita.

Luís Filipe Sarmento, «Rouge – utopie»
Foto: Isabel Nolasco


É noite: depois das bombas, a música toda.
Tudo respira na primeira morada
com o desabafo ruidoso das tempestades.
Nela sobrevivo. Ignorante
e preguiçoso ante o olhar dos céus.
Suspensa esta sensação que provo do impacto do encaixe
com o húmus. Meu bravo lugar. Incandescente o chão.
E na pedra singular, entre vários sintomas de branco,
as imagens: circulo com a vida, jogando-a.
Precipito-a para a morte, repetindo-a.

“Tinturas alquímicas”, 1995


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