“LABORATÓRIO DE ESCRITA” SEIS DESCULPAS PARA NÃO ESCREVER

Written by on 16/09/2020

“Os dias começaram a arrastar-se como lesmas, passava-os sentado à mesa, de caneta na mão, a olhar o papel vazio numa paciência imóvel que me doía (…)” (António Lobo Antunes)

Desculpas para não escrever

Doce procrastinação. Quem nunca adiou uma tarefa para se sentar no sofá a ver um filme, com uma manta no colo e um pacote de pipocas na mão? Não é estranho – nem incomum – que troquemos uma tarefa aborrecida por uma que nos dá prazer, mas parece improvável que um escritor apaixonado troque a escrita pela limpeza da banheira. Na realidade, criar um blogue ou escrever um livro são tarefas frequentemente adiadas por escritores com aptidão e vontade. Porque é que acontece? Estas são as seis razões mais comuns.

1 – Falta de tempo
Será mesmo falta de tempo? Para quem adora escrever quaisquer cinco minutos deviam ser bons para rabiscar um texto, no entanto a maioria dos escritores trata a procrastinação por tu: é preciso ir ao supermercado, dobrar a roupa, ou mesmo dormir uma sesta. Para se ser escritor não basta ter vontade, é preciso definir e cumprir uma rotina de escrita. Desvendamos, nos pontos seguintes, porque nunca encontra tempo para escrever.

2 – Insegurança
A urgência repentina que sentiu de comprar um pacote de leite não passa de autossabotagem. Talvez nem se importe de beber um copo de sumo natural ao pequeno-almoço, mas no momento em que pensou em sentar-se para escrever, o pacote de leite pareceu-lhe mais valioso que a própria vida. Se procurar no fundo das prateleiras da sua mente não vai encontrar leite, mas encontrará o medo da página em branco, o medo de não ter a técnica necessária para estruturar a história, o medo de sofrer um bloqueio criativo. Temos algo para lhe dizer: até os escritores mais experientes passam horas a olhar para uma folha branca; a técnica estuda-se; os bloqueios enfrentam-se. O seu livro não se vai escrever sozinho.

3 – Medo do julgamento
Acreditar que os outros vão detestar a sua escrita pode ser aterrador, mas não passa de uma crença limitadora. Claro que existirá sempre quem goste e quem não goste do que escreve, assim como existe quem, inacreditavelmente, não goste de chocolate. Querer agradar a todos é utópico. Concentre-se em conquistar alguns leitores fiéis, não em brilhar no firmamento mundial ou em arrebanhar o Nobel da Literatura. Lembre-se do Nobel José Saramago: uns gostam, outros detestam.

4 – Medo da concorrência
Não tema os outros escritores, existem leitores para todos. Tema os meios audiovisuais, pois esses são a verdadeira concorrência do livro. Vivemos a era do vício nos estímulos sensoriais, no imediato, nas mensagens mastigadas e prontas a engolir. Se lhe parece impossível que a literatura possa competir com as séries televisivas, as redes sociais e os videojogos, saiba que não é bem assim. Já ouviu falar em Storytelling? A formação sobre a arte de contar histórias é obrigatória para todos os que procuram captar e manter a atenção do leitor.

5 – Não encontrou a sua história
Procure-a. Doeu? Olhe à sua volta neste momento: chegue-se à janela, veja a pessoa que está ao seu lado, leia as notícias na internet, entre dentro de si e dos outros. Melhor ainda, não olhe, observe. Questione o mundo, aponte histórias extraordinárias. Existem quatro coisas essenciais para um escritor: ler, escrever, observar e tirar algum tempo para deixar o pensamento divagar. Se decidir procrastinar, deite-se numa cama de rede e deixe que a preguiça jogue a seu favor.

6 – Stress
Este é o único motivo que nos obriga a dar o braço a torcer. Se está a passar por uma fase de problemas pessoais graves, de muita pressão ou cansaço, priorize a saúde emocional. Use a escrita como ferramenta terapêutica, se assim o entender, mas não se imponha uma rotina rígida. Escreva poesia, desabafos, um diário. Há momentos em que bastam as imposições da vida e é mesmo preciso parar. Adiar projetos não é desistir deles.

Ainda aí está? Feche esta página e comece a escrever.

(Lara Barradas)


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