“O SONHO É UM GRANDE ESCRITOR – LIVRO DE HORAS VII”

Written by on 15/09/2020

MARIA GABRIELA LlANSOL Desde 10 setembro disponível nas livrarias.

«Se é o sonho que cria o homem, vou criar o sonho que me cria»
(Maria Gabriela Llansol)

‘O Sonho É Um Grande Escritor’, o sétimo ‘Livro de Horas’ de Maria Gabriela Llansol, é uma obra singular ao reunir um número significativo de sonhos que foram ganhando forma escrita desde 1969, muitos por sugestão do psicanalista da autora em Lovaina, e até 2006.

Este sétimo Livro de Horas de Maria Gabriela Llansol, o seu «Livro dos Sonhos», concentra-se, com a diversidade que ainda assim o caracteriza, num único tipo de registo: é um repositório da escrita assumidamente onírica da autora, um espelho da sua «sismografia íntima», frequentemente com comentários, tentativas de interpretação e contextualização dos sonhos, e muitos desenhos que parecem nascer da experiência onírica ou visionária e que, nos seus cadernos, interrompem e prolongam muitas vezes a escrita. O sonho, e a necessidade da sua fixação e interpretação, é aqui acima de tudo o espaço de perda e de busca de si por parte de um sujeito que a si mesmo permanentemente se põe em cena, indo de corpo e alma ao encontro dos seus desejos, anseios, medos e dúvidas.

Maria Gabriela Llansol

Escritora portuguesa de ascendência espanhola, nascida no ano de 1931 em Lisboa. Licenciou-se em Direito e em Ciências Pedagógicas, tendo trabalhado em áreas relacionadas com problemas educacionais. Em 1965, abandonou Portugal para se fixar na Bélgica. Regressou há alguns anos a Portugal. Considerada uma autora cuja escrita é hermética e de difícil inteligibilidade para o leitor comum, é, no entanto, apontada por muitos como um dos nomes mais inovadores e importantes da ficção portuguesa contemporânea. A sua carreira literária iniciou-se com Os Pregos na Erva (1962), obra que inaugurou uma nova forma de escrever, embora estruturalmente se assemelhe a um livro de contos. Publicou de seguida Depois de os Pregos na Erva (1972), O Livro das Comunidades (1977), A Restante Vida (1983), Na Casa de Julho e Agosto (1984), Causa Amante (1984), Contos do Mal Errante (1986), Da Sebe ao Ser (1988), Um Beijo Dado Mais Tarde (1990), com evidentes ressonâncias autobiográficas, Lisboaleipzig 1: O Encontro Inesperado do Diverso (1994), Lisboaleipzig 2: O Ensaio de Música (1995), Ardente Texto Joshua (1998) e Onde Vais Drama Poesia? (2000).

No caso de Maria Gabriela Llansol dificilmente se podem aplicar designações tradicionais como conto, romance ou mesmo diário. Apesar de se detetarem elementos tradicionais da narrativa, as suas obras, mais do que narrativas, são conjuntos de pequenos quadros e meditações. A ação localiza-se geralmente na Alemanha ou em regiões próximas, nos primórdios do Renascimento, num ambiente fantástico em que à volta de Copérnico, Isabol ou Hadewijch se movimentam personagens inspirados em pensadores místicos como San Juan de la Cruz e Eckhart e filósofos como Nietzsche e Espinosa.

Os diários Um Falcão em Punho (1985), considerado o ponto de viragem no que toca à cada vez maior inteligibilidade da sua escrita, e Finita (1987), distinguem-se das obras ficcionais pela sua aparente ordenação cronológica e pelas reflexões sobre a conceção materialista em que se baseia a mística e a poética da autora.

Um dos traços mais marcantes de toda a sua produção consiste na constante negação da escrita representativa, com inserção no texto de diferentes caracteres tipográficos, espaços em branco, traços que dividem o texto, perguntas de retórica, aspetos que contribuem para a sensação de estranheza que os seus textos provocam.

Levando às últimas consequências a criação de um universo pessoal que desde os anos 60 não tem paralelo na literatura portuguesa, a obra de Maria Gabriela Llansol faz estilhaçar as fronteiras entre o que designamos por ficção, diário, poesia, ensaio, memórias, etc.


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