“A MUSA DOS ESTÁDIOS” DE FRASSINO MACHADO CHANCELA IN-FINITA

Written by on 10/09/2020

MONTRA DE LIVROS NTR.

 A MUSA DOS ESTÁDIOS  Frassino Machado.

“Obra poética original” acabada de nascer, inspirada no Mundo Desportivo hodierno.

PREFÁCIO por Francisco Sequeira Andrade.

Quando nos reencontrámos pessoalmente em meados de Setembro, por oportuna sugestão do Francisco de Assis, começamos por resumir em frases simples as nossas trajectórias de vida desde o momento, impossível de datar, em que pela última vez dialogámos presencialmente. Passaram-se certamente mais de trinta anos desde esse momento, concordamos.

Mas o que é que, tanto tempo depois, e para além de um recente e circunstancial reencontro via redes sociais, pensei eu depois de nos despedirmos, nos mantinha ligados? A resposta é simples: o desporto, mais precisamente o envolvimento numa actividade desportiva de que fizemos parte em diferentes qualidades – ele enquanto atleta e treinador, eu como episódico jornalista e adepto comprometido da primeira das modalidades olímpicas: o Atletismo. A conclusão não pode ser outra: o desporto forja afinidades que resistem à distância e ao tempo. E foi essa proximidade que nos fez retomar com a maior naturalidade e interesse um diálogo interrompido durante algumas décadas.

Ao prazer do reencontro juntou-se a amabilidade da oferta do seu mais recente livro de poesia, valorizado por amabilíssima dedicatória, e uma surpresa da qual, em última análise, decorre o facto de o estimado leitor estar agora a ler estas palavras: depois de me informar da próxima edição de um seu livro de poesia com inspiração desportiva, atribuiu-me sem possibilidades de recusa a honra e a responsabilidade de me estrear como prefaciador de um livro em que celebraria o desporto e alguns dos seus destacados protagonistas.

A tradição de exaltar pela poesia os heróis e os atletas, e de através dela os elevar a uma condição quase-divina, remonta à Grécia Antiga, domínio que o nosso autor, enquanto estudioso da mitologia e da filosofia, visivelmente acarinha e domina.

O paradigma do estatuto de herói apelava na Grécia Antiga àquilo que hoje se descreveria como a educação integral do homem: de um estado inicial de reconhecida imperfeição, cada indivíduo deveria almejar a um ideal que combinaria de forma harmónica atributos intelectuais, morais, estéticos e de aptidão física.

O espírito atlético vigente na Grécia Antiga que, num primeiro momento, se associava ao treino militar, consubstanciava, como nenhuma outra qualquer actividade humana, a justificável ambição de auto-superação: a ágon, como luta ou competição publicamente testemunhada deveria conduzir à nike – vitória –e, em última instância, à apoteose – à quase-divinização do indivíduo. Palavras e conceitos que, mais ou menos transformados, pertencem ainda hoje ao nosso vocabulário, passados quase três milhares de anos.

Héracles e os seus famosos doze trabalhos ilustram, de modo exemplar, essa caminhada, essa fusão de virtudes heróicas com a prática atlética: o completar de cada um, mais exigente que o anterior, punha à prova um conjunto de qualidades que eram simultaneamente físicas e espirituais, e ilustravam de modo exultante essa caminhada individual para a perfeição.

“Sê sempre o melhor e o mais corajoso”: na Ilíada, de Homero, assim exortou Peleu a seu filho Aquiles, um dos mais famosos heróis gregos, no que resume o arquétipo grego da juventude. Competir e vencer passaram, assim, a elementos fundamentais da identidade grega.Este ethos competitivo – e continuamos a recorrer ao legado grego – acabou por se consubstanciar na realização dos Jogos Olímpicos de quatro em quatro anos. O local escolhido foi Olímpia, local já devotado ao culto de Zeus, o rei dos Deuses, que passou assim a contar com uma forma adicional de culto. A competição, disputada pela primeira vez em 776 a. C, atraiu desde logo as cidades-estado concorrentes, que através dos seus representantes procuravam, entre todas, afirmar a sua reputação e supremacia – desígnio ainda presente nos Jogos da Era Moderna – bem como reverter para a condição militar todos os benefícios da cultura física. Em tempo de paz, a lança passou a ser substituída pelo dardo!Durante os primeiros Jogos disputava-se um único evento: a corrida de volta ao Estádio, pensa-se que de cerca de 192 metros (600 pés gregos), que desde logo afirmou o primado do Atletismo entre todas as modalidades olímpicas. Tão importante era a vitória que a olimpíada seguinte – o período de quatro anos até aos jogos seguintes – assumia o nome do campeão. Aos vencedores eram impostas coroas de ramos de oliveira, colhidos das árvores cuja plantação era atribuída ao herói Héracles, e por vezes eram-lhes erigidas estátuas nos locais das suas vitórias. Um atleta vitorioso trazia grande honra e fama à sua cidade-estado. No século VI a. C, o estadista ateniense Sólon promoveu o Atletismo premiando financeiramente os vencedores – um campeão olímpico receberia 500 dracmas (enquanto, como comparação, uma ovelha valia um dracma). Outros recebiam alimentação gratuita até ao fim da vida. Outros houve, como conta Tucídides, que tentaram entrar na política a partir do seu prévio sucesso desportivo, como o ateniense Alcibíades. Os gregos pouco teriam a aprender connosco, também aqui!Quando se revelasse ingrata para o seu campeão a polis podia sofrer as maiores penas, como o caso de Dyme que, incapaz de honrar o seu campeão Oibotas em 756 a. C, se autoflagelou com 300 anos de derrotas, até finalmente lhe erigir uma estátua em Olimpia e assim reverter o castigo.

Mas a admiração pelos atletas não era consensual entre os gregos: “Não é justo preferir a força à sabedoria” dizia Xenófanes (século VI a. C). A simples vitória nos Jogos não melhorava a cidade! Eurípides foi também certeiro, na sua peça Autolycos, ao descrever os atletas como escravos dos seus estômagos, sem saberem tomar conta de si mesmos, e, apesar de cintilarem como estátuas no seu apogeu, tornarem-se tapetes esfarrapados no seu ocaso. Também Galeno, famoso médico, atacou o atletismo como não natural e excessivo: “os atletas comem muito, dormem muito e sujeitam os seus corpos a esforços exagerados”. Que é o mesmo que dizer: a consciência do preço do alto rendimento já vem dos sábios gregos!

A quase-divinização dos grandes atletas não permitiria jamais esconder a sua natureza humana, à espera da primeira tentação para se manifestar em todas as suas fragilidades. O juramento olímpico, que ocorria sempre na jornada inaugural dos Jogos, não evitava que muitos desrespeitassem as regras, causando não poucas vezes o desfavor do público e dos próprios políticos. Eram castigados e multados, e o dinheiro da multa usado para edificar uma estátua de culto a Zeus.

A ambivalência de como eram vistos os atletas na Grécia Antiga tem perfeita ressonância na contemporaneidade. A quase-divinização dos grandes expoentes do desporto, tão frequente como desproporcionada, é um traço indelével dos tempos de hoje. Em toda a sua amplitude, também no desporto, somos depositários da histórica herança helénica: imperfeita, por humana, mas riquíssima e moldadora do que pensamos e sentimos acerca da forma como hoje vemos o mundo.

E foi certamente pensando no melhor que o Desporto e os seus mais destacados intérpretes nos podem oferecer, que o meu amigo Francisco de Assis – Frassino Machado nas lides poéticas – encontrou inspiração para poeticamente os homenagear, nesta original obra A MUSA DOS ESTÁDIOS.Num país de paupérrima cultura desportiva, Frassino surge como pioneiro no culto de um género literário quase ignorado em Portugal. E em boa hora o cultivou: o sucesso do vencedor, nem que seja na luta contra si próprio é, também, a alegria do adepto que do lado de fora vibra com a sua proeza. E é este, estou convicto, o fundamento da poesia de Frassino Machado.



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