AS MINHAS HISTÓRIAS NAS “ONDAS DO ÉTER” CRÓNICA SEMANAL DE ALICE VIEIRA

Written by on 05/09/2020

OLÁ, COMO ESTÁ ?

Em finais dos anos 70, mandaram-me fazer uma entrevista ao
então sócio nº 1 do Sporting, Mário Duarte.


Mário Duarte não era só um grande homem do desporto, mas
tinha tido uma carreira brilhante na diplomacia. Andaria naquela
altura muito perto dos 80 anos.
Ligo-lhe para casa para marcar a entrevista, e vem uma
empregada ao telefone que me diz que vai chamar a senhora.
Estranhei, o que teria a senhora a ver com aquilo.
Pelos visto, tinha.
Perguntou-me quem eu era, o que tinha para dizer ao marido—e
eu lá fui desbobinando, jornalista, queria falar com ele de
desporto, claro, mas também da grande carreira que tinha sido a
sua, de todos os países estrangeiros por onde exercera a
diplomacia.
Tudo a senhora ouvia sem dizer nada. Até que finalmente lá
explicou. Nestes últimos tempos, todas as pessoas que ligavam
para falarem ao marido era só para lhe darem notícias de amigos
que tinham morrido. E isso deixava-o muito deprimido.
Por isso ela tinha passado a “filtrar” as chamadas. Se eu lhe
garantia que não lhe ia falar de amigos mortos, ela passava-lhe o
telefone.


E lá marcámos a entrevista—e eu lembro-me que foi uma bela
entrevista, ele falava muito bem e com grande alegria de tudo o
que tinha feito.

Lembro-me que a entrevista foi feita no jardim da moradia onde vivia,

e a senhora esteve sempre sentada
mesmo ao meu lado — não fosse a conversa desviar-se para
assuntos proibidos…


Lembrei-me disto agora, depois de ter acabado de ligar a um
amigo que não via há muito e ele me dizer “ainda bem que
telefonaste…Ninguém me telefona… Parece que já todos se
esqueceram de mim…”


Desliguei e comecei a rir : vou-lhe ligar tantas vezes que vai haver
um dia em que ele já não vai poder ouvir a minha voz.


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