“UM PASSO PARA SUL” DE JUDITE CANHA FERNANDES CHANCELA GRADIVA

Written by on 21/06/2020

MONTRA DE LIVROS NTR.

Romance galardoado com o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís.

«Os sonhos de Ângela eram frequentemente marítimos. Afogou­-se muitas vezes na cama.

Às vezes acordava aos gritos:

— A porta!! Tranca a porta!

Para não deixar o mar entrar.
Só que o mar entrava sempre, o Atlântico é invencível. Acordava azul. […] Procurou afastar a teia das vozes velhas, pegou numa vela, numa caixa de fósforos e sentou-se na marquise à espera do furacão.

Gordon. Estimativa de ventos: 120 km/h.»

Um Passo para Sul decorre entre os quatro arquipélagos atlânticos onde se fala português. «No Atlântico moram povos de várias margens. Não têm guelras, já que respiram pouco. Têm labores plácidos, cortinas de água e, às vezes, a imaginação um bocado furiosa.»



O júri considerou Um Passo para Sul um romance com um «alcance humano e social mais profundo». «Os registos linguísticos e imaginativos do crioulo inscrevem-­se criativamente na estrutura global da narrativa, contribuindo para a formatação de uma linguagem literária muito estimulante»; «um romance em que o amor, mas também a violência terrível exercida sobre as mulheres, se constituem em traves mestras do universo existencial das personagens». Se o romance sugere também «esperança e luminosidade, não faz esquecer a contundência psicológica que o estrutura e que a todos nos agride no seu alcance humano e social mais profundo.»

«Perguntar‑se sobre a natureza humana é essencial para a escrita – é algo de que a escrita é refém. Só que essa é uma pergunta sempre em expansão», diz Judite Canha Fernandes, autora de “UM PASSO PARA SUL”, romance galardoado com o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís.


O mundo é naturalmente lugar de inspiração para os escritores. Como é que, enquanto escritora, olha para toda a problemática em torno da Covid ‑19?

É difícil separar a escritora do resto de mim. Mas vou tentar esse exercício, para procurar responder. Sobre este caso, poderíamos dizer que quem escreve, quando vive a relação com a sua escrita, é de algum modo amoral, desprovido de ética. Por isso podemos matar, construir personagens que eventualmente nos causam asco, etc. A criação é sempre uma abertura a tudo, sem filtros. Neste sentido, um terramoto como esta pandemia, um desajustamento, uma falha súbita, do que até então tomávamos como «normal», é também uma fonte de possibilidades que se abre e que permite criar a partir de aspectos que surgiram de novo no que conhecíamos do mundo até aqui. É de algum modo tão inspirador quanto turvo e desolador. Sendo difícil, é fascinante. Por isso se multiplicam os actos de escrita em épocas como esta, mesmo entre quem não é escritor ou escritora. Arriscaria até dizer que não há, neste momento, escritora ou escritor no mundo que não tenha escrito algo sobre tudo isto. Digamos, para fins de metáfora, que a pandemia funciona, para a escrita, como um novo osso à frente de um cão. Uma espécie de convocação. Por outro lado, quem escreve são apenas seres humanos, que por tal sentem esta enorme turbulência com a mesma intensidade, preocupação, impotência, dificuldades materiais e perplexidade que qualquer outra pessoa. E, imagino, a mesma vontade e necessidade urgente de reinvenção.


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