AS CORES DOS AUTORES 30 MAIO 92ª EMISSÃO LUÍSA SEMEDO. EMANCIPAÇÃO E INTEGRAÇÃO.

Written by on 29/05/2020

14:30 – 16:30H AS CORES DOS AUTORES. Na tela da Rádio, Histórias, Conversas, Ideias, Sensibilidades. Esculpindo Memórias. Produz Realiza JORGE GASPAR.

Nos estúdios da NTR, a presença de LUÍSA SEMEDO, a propósito da edição do romance “O Canto da Moreia”, com chancela CoolBooks. O primeiro romance de Luísa Semedo, uma das (ainda) poucas boas obras literárias escritas por portugueses afrodescendentes, a retratarem uma viagem física e psicológica de África para Portugal.

A acompanhá-la, VÍTOR GONÇALVES, Editor da Coolbooks. Uma chancela do Grupo Porto Editora que dá a conhecer tantos novos talentos da literatura portuguesa.

LUISA SEMEDO

Luísa Semedo nasceu em Lisboa, em 1977, e viveu até aos 24 anos no Bairro da Serafina, antes de emigrar para França. É doutorada em Filosofia pela Universidade Paris-Sorbonne. Nos últimos anos tem exercido uma actividade intensa como dirigente associativa. Leciona a cadeira de Criação e Gestão de Associações e ONG na Universidade Clermont-Auvergne e preside a associação MigraCult. É conselheira das Comunidades Portuguesas e presidente do Conselho Regional Europa do CCP. Venceu, em 2017, o primeiro lugar do Prémio Literário e de Ilustração Eça de Queiroz com o conto Céu de Carvão, Mar de Aço, editado posteriormente na colectânea “Desafios da Europa” pela Editora Livros de Ontem. O seu conto O Arroz é Proibido foi seleccionado em 2018 para a terceira antologia de contos do Centro Mário Cláudio. É a autora do prefácio Viagens Anteriores do segundo volume da antologia “Poetas Lusófonos na Diáspora”, publicado pela Oxalá Editora, em 2018.

Quando Eugénio, um jovem órfão cabo-verdiano que carrega consigo um segredo de família, troca a sua terra natal por Lisboa, fá-lo com objetivo de aprender aquilo a que chama o “Conhecimento Universal”.

Logo na noite da sua chegada, porém, Chico, o padre também cabo-verdiano que o acompanhou na viagem, corta-lhe esse sonho pela raiz, colocando Eugénio, por assim dizer, no seu devido lugar, o mesmo que Chico achou por bem aceitar e que durante séculos pôs o negro numa posição de submissão em relação à supremacia da cultura e da religião europeias. Eugénio, homem instruído, não aceita esse ancestral papel de subordinação e tenta impor-se num Portugal pós-revolucionário, mas ainda carregando em si (como ainda hoje) os tiques de quinhentos anos de colonialismo e imperialismo racistas.

Recorrendo a uma estrutura original – cada capítulo decorre num espaço diferente – “O Canto da Moreia”, vai retratando os progressos e os retrocessos da vida de Eugénio.

De líder sindical numa fábrica de parafusos, homem bem casado com uma branca e pai de filhos, ele, frustrado com os obstáculos intransponíveis que lhe vão aparecendo pela frente, vai caindo numa espiral decadente que o levará ao alcoolismo e à vida de sem-abrigo.

No Portugal profundamente desigual dos anos 70 e 80, onde nem os salários indignos conseguiam arrancar à pobreza as classes populares (haverá algo mais injusto do que a pobreza de quem trabalha?), Eugénio não consegue dar à família a vida com que sempre sonhou.

À sua condição de pobre soma-se o facto de ser negro e desenraizado.

E, como provam as ciências sociais, na Europa é muito mais difícil ser um pobre negro do que ser um pobre branco.


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