AS CORES DOS AUTORES “CÉLIA CORREIA LOUREIRO” A FAMÍLIA. VALORES E REALIDADES.

Written by on 09/05/2020

AS CORES DOS AUTORES.

Na tela da Rádio, Histórias, Conversas, Ideias, Sensibilidades. Esculpindo Memórias. Produz Realiza JORGE GASPAR.

A visita de Célia Correia Loureiro, a propósito da edição do seu livro “DEMÊNCIA”, com a Chancela CoolBooks. Da realidade da perda de memória até à violência doméstica. Todos os tempos são de coragem e sobrevivência. Duras verdades que comprometem a Família, estando em equação o seu significado e valores.

No seio de uma aldeia beirã, Olímpia Vieira começa a sofrer os sintomas de uma demência que ameaça levar-lhe a memória aos poucos. A única pessoa que lhe ocorre chamar para assisti-la é a sua nora viúva, Letícia. Mas Letícia, que se faz acompanhar das duas filhas, tem um passado de sobrevivência que a levou a cometer um crime do qual apenas a justiça a absolveu.

Perante a censura dos aldeões, outrora seus vizinhos e amigos, e a confusão mental da sogra, Letícia tenta refazer-se de tudo o que perdeu e dos erros que foi obrigada a cometer por amor às
filhas. O passado é evocado quando Sebastião, amigo de infância de Olímpia, surge para ampará-la e Gabriel, protagonista da vida paralela que Letícia gostaria de ter vivido, dá um passo à frente e assume o seu papel de padrinho e protector daquelas três figuras solitárias.

DEMÊNCIA traz-nos, através das vivências destas duas mulheres, a dura realidade de um Portugal rural e ainda tendencioso, e faz-nos repensar o significado de família e de comunidade, de inocência e de culpa.

CÉLIA CORREIA LOUREIRO nasceu em Almada, em 1989. Guia-Intérprete Nacional e Técnica de Turismo. Fala Italiano, Inglês e Francês. Gosta de gatos e de crepes com Nutella. De todas as cidades que visitou, é por Siena que morre de amores. De todos os autores que leu, destaca John Steinbeck por As Vinhas da Ira, e está sempre disposta a dispensar mais quatro horas da sua vida ao visionamento de E Tudo o Vento Levou

Demência foi o seu primeiro romance publicado (Alfarroba @ 2011). É um livro que continua a ser-lhe muito próximo, por ser um grito de revolta contra as circunstâncias da mulher portuguesa no século XX, e da mulher ainda vulnerável, isolada e silenciada pelos bons-costumes, no mesmo contexto de ruralidade, em pleno século XXI.

Em Abril de 2019 foi reeditado pela Coolbooks, numa edição revisitada na íntegra, juntando-se assim a O Funeral da Nossa Mãe(Alfarroba @ 2012), A Filha do Barão (Marcador @ 2014), e Uma Mulher Respeitável(Marcador @ 2016). 

“As histórias que conto não são a história de ninguém, mas serão certamente a história de alguém.”

“Este Demência foi um trabalho descontínuo desde 2009, e foi culminar em cento e qualquer coisa páginas escritas de um sopro em Julho de 2011. “

“Fui eu que a escrevi – mas mais do que um eu, Célia, fui eu, portuguesa. As palavras com que me expressei são aquelas, não foram traduzidas nem seleccionadas pela editora. São mesmo aquelas – desconcertantes, por vezes, duras, cruas, comoventes, descritivas, desoladoras. São aquelas e não outras.”

É um enredo sobre  – não me tinha apercebido disso. Sobre os motivos pelos quais as pessoas são levadas a acreditar numa asserção, motivos esses condicionados, inconscientemente, pelo próprio empirismo, pela racionalidade, pelos estereótipos, pelos preconceitos, pelas ideias pré-concebidas, pelo nosso próprio conhecimento, tantas vezes ignorante ou insuficiente, dos outros e dos factos. “

“…deu-me um prazer enorme escrevê-lo e é agradável saber que, quando estou com pouco apetite para leituras, é o meu pequeno (não assim tanto) Demência que me pisca o olho da estante e é ele que me distrai. As páginas voam – como leitora, que bebe as palavras que lê, e não como a escritora que lhes deu voz – nas minhas mãos.

“A Juventude não fica para sempre e o Livro SIM”.

“Bastou aquele gemido da velha para que os três tivessem uma confirmação. Esperavam que dissesse que torcera um pé e que, por isso, não se podia deslocar até aos currais. Mas a vizinha limitava-se a não compreender que a causa da morte dos animais era a sua ausência.

— Há mais de uma semana que não vai ao curral, dona Olímpia. Não a temos visto por lá e os animais vão morrendo à fome.

— Que animais é que morreram à fome? Então eu não vou lá todos os dias? Já lá fui hoje e daqui a nada já lá vou de novo. – Olímpia expressava-se como se a injuriassem.

— Agora que caiu a noite é que lá ia, para partir um pé e ficar um mês de cama? – sibilou Zé, sem que Salomé o chamasse à razão.

De súbito, também ela pareceu impaciente, vindo-lhe à ideia a roupa que deixara estendida.

Olímpia prosseguia, irritada:

— Eu vou lá quando eu quiser, os animais são meus. Não tenho marido nem pai que me dêem ordens.

Salomé acenou ao marido. Não valia a pena, estavam a enervar a pobre mulher.

— Quer que vá consigo amanhã ao curral, para a ajudar?

— Eu não preciso de ajuda nenhuma, nunca precisei. — Pondo-se de pé, a idosa pegou na toalha e nos utensílios para bordar e voltou-lhe as costas.

Ao fechar a porta atrás de si, ainda a ouviram tartamudear:

— Agora querem ver que estou maluca?”

“(…) Claro que sim, os maridos haveriam sempre de levantar a mão às mulheres. Parecia-lhes natural, e conviviam bem com isso.

O que era intolerável era uma mulher o denunciar, a bandeiras despregadas, na rua. O que era impensável era uma vizinha meter-se nos assuntos de marido e mulher e ligar para as autoridades. O que era inaceitável era uma mulher — como se fosse dona dos destinos dos dois, quando devia apenas submeter-se ao marido — disparar-lhe uma saraivada de balas no couro e ser ilibada. Os casamentos morreriam, por estas bandas, se assim fosse. O que seria das mulheres quando os maridos as achassem tão ariscas que as vidas deles ficavam em risco? Morreriam solteiras, ficariam para tias. E o casamento é apenas o sacrifício que qualquer mulher deve fazer, na ideia popular, para aceder ao milagre da maternidade.”


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