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1.° CONCURSO DE PIANO DA SERRA DA ESTRELA

Written by on 20/07/2019

A NTR e o Jornal Porta da Estrela (Seia) estreitaram laços de colaboração, resultando a possibilidade de publicação de artigos da autoria de Carlos Manuel Dobreira. Os artigos inserem-se no âmbito da presença do Re: Flexus Trio no 1.° Concurso de Piano da Serra da Estrela, aproveitando-se para se fazer um pouco da história de três jovens, uma breve entrevista a uma jovem pianista beirã e a referência a um vulto da cultura do concelho de seu nome Anna Ferreira da Fonseca.

A MULHER, A MUSICA E A SERRA DA ESTRELA

A Serra da Estrela já deu ao nosso país e, por exemplo, aos Estados Unidos da América, mulheres notáveis em áreas como o movimento sindical, a poesia, a ciência, a literatura, a pintura e a música, entre outras.
Nos finais do século XIX e nas primeiras três décadas do século XX, a imprensa escrita no concelho de Seia revela uma interessante vida social e cultural ligada à música. Destaque para a existência, por exemplo, de aulas de piano, breves concertos públicos e nos solares de famílias abastadas. No concelho de Seia, várias mulheres marcaram a vida cultural e religiosa do século XX. E foi na última década deste século que ocorreram as Primeiras Bienais de Música da Vila de São Romão, em abril de 1994.
Porém, é pouco conhecida, mas existe uma história da música nos confins da Serra da Estrela.
Hoje, em pleno século XXI, muito se espera das mulheres do nosso país.
É curioso que ao longo destes anos, tive alunas e alunos que seguiram a carreira musical ou a investigação. Nas salas de aula ou em breves conversas, os nomes sonantes de Hélia Abranches de Soveral, Joaquim Gonçalves dos Santos, João de Sousa Carvalho, Madalena Sá Pessoa, Manuel Faria, Maria João Pires, provocaram aulas fascinantes e até a organização de conferências, eventos e evocações.[1] Também abordei as figuras da nossa Serra, tais como Anna Ferreira da Fonseca (Ver caixa: Anna Ferreira da Fonseca e o seu legado), de São Romão ou Jaime Pinto Pereira, de Alvoco da Serra.


Assim, no âmbito do 1º Concurso de Piano da Serra da Estrela[2], em Seia, ocorreu um recital de música de câmara a cargo de um trio, de seu nome Re: Flexus Trio, formado por Ana Sofia Matos, Mariana Morais[4] (viola d’arco) e Maria Isabel Lopes de Mendonça (piano), com raízes familiares em Paranhos da Beira. Conheceram-se na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE), no Porto, quando frequentaram a Licenciatura em Música, em diferentes variantes.
No entanto, receber a Maria Isabel Lopes de Mendonça (Ver caixa: Breve entrevista a uma jovem pianista), em Seia, pareceu-me um momento marcante, num século cujas primeiras duas décadas afastaram as jovens e os jovens das terras onde cresceram. Frequentou a Licenciatura em Música – Ramo de Piano e Teclas na ESMAE, onde foi aluna da Professora Madalena Soveral. Em simultâneo, frequentou o Mestrado Integrado em Arquitetura, na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto (FAUP).
Do seu percurso de vida, salientava, em maio de 2018, a atribuição do prémio Viana de Lima. Segundo a pianista, este prémio “é relativo ao aluno que concluiu o mestrado no ano precedente com a melhor média à disciplina de Projeto (a mais importante do curso).” Igualmente, em 2018, foi distinguida com o prémio Ricardo Spratley, devido à conclusão do Mestrado Integrado mencionado com uma média superior ou igual a 17,5 valores. Atualmente, frequenta o Doutoramento em Arquitetura na Universidade do Poro, estando a trabalhar na sua tese, subordinada ao tema “A raia de Ribacôa. Dialéticas da organização do povoamento e da construção da paisagem rural”.
Para a história, fica o reportório apresentado em Seia pelo Re: Reflexus Trio: W. A. Mozart: Trio Kegelstatt K. 498 (1786) I. Andante II. Menuetto III. Rondeaux: Allegretto; M. Bruch: Acht Stücke, op. 83 (1910) I. Andante II. Allegro con moto III. Andante con moto V. Rumänische Melodie; E. Sawyer: Trio for clarinet, viola and piano (1994); Astor Piazzolla (arrg. Mariana Morais): Cuatro Estaciones Porteñas (1965-1970) 1. Verano Porteño 2. Invierno Porteño.
O concelho de Seia possui um vasto Património Cultural que oferece cenários notáveis para a realização de concertos de música clássica. Imaginem um concerto de piano na Quinta da Bica (Arrifana), na Igreja Matriz de Sameice ou na Capela de Nossa das Neves (Paranhos da Beira), com a presença dos talentos do concelho de Seia?
[1] É exemplo a Evocação Internacional de Joaquim Gonçalves dos Santos (1936-2008), promovida durante o ano letivo 2012/2013 pelo Agrupamento de Escolas de Cabeceiras de Basto.
[2] A organização coube à Associação de Arte e Imagem de Seia (AAaaIS) – Núcleo de Música e contou com o apoio da Câmara Municipal de Seia, da Casa da Cultura de Seia, do Conservatório de Música de Seia – Collegium Musicum e da Escola Profissional da Serra da Estrela. Para saber mais sobre o evento, aceda em: https://www.casadaculturadeseia.pt/nucleo-musica-aais.htm;
[3] Ana Sofia Matos é de Gondomar e frequenta o Mestrado em ensino de Música, na Universidade da Aveiro.
[4] Mariana Morais é da Covilhã e frequenta o Mestrado em Ensino de Música – Ramo de Cordas na ESMAE.
(Carlos Manuel Dobreira)

ENTREVISTA A UMA JOVEM PIANISTA.


O jornal Porta da Estrela teve o ensejo de colocar algumas questões a Maria Isabel Lopes de Mendonça, jovem pianista e arquiteta, de 25 anos, com raízes familiares em Paranhos da Beira.


Quais as razões e as influências que a levaram a estudar na Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE)?


A música esteve, quase sempre, presente na minha vida. Aos 7 anos, comecei por aprender a tocar trompete na Banda Filarmónica de Tourais (que, entretanto, cessou atividade, por falta da massa humana, creio eu) e, aos 8 anos, ingressei no Collegium Musicum – Conservatório de Música de Seia. Desde, então, tive boas referências na área da música, como o pianista André Santos, o violinista Luís Gomes, as professoras Ludovina Fernandes, Tatiana Yakimova, Diana Ferreira e o pianista Hugo Passeira, que contribuíram imenso para que continuasse a estudar piano ao nível de um curso superior.


É possível afirmar que a Serra da Estrela inspirou a Maria Isabel?


Evidentemente que sim. Para além do piano, fui conseguindo conciliar o violino com a vertente da música tradicional portuguesa, aprendendo canções, modas de baile, fados mandados, valsas, etc., características da região da Beira Alta Serrana. Também desde bastante jovem que pertenço ao Rancho Folclórico de Paranhos da Beira.


Se fosse possível escolher dois dos seus compositores preferidos, quais escolheria?


É muito difícil nomear somente dois compositores. Por um lado, posso referir o pianista e compositor do período romântico, Franz Liszt, pelo virtuosismo, lirismo e espiritualidade que, particularmente, as suas obras para piano evocam. No entanto, mais do que uma técnica pianística exuberante, a grande exigência do seu repertório relaciona-se, na minha opinião, com a capacidade do intérprete percecionar e demonstrar musicalmente intenções sensíveis, como o sofrimento, o amor, a nostalgia, o heroísmo…
Por outro lado, destacaria Fernando Lopes-Graça ou Eurico Carrapatoso pela maravilhosa reinvenção que fizeram de temas tradicionais portugueses. Contudo, poderia referir muitos outros nomes da música portuguesa, de períodos distintos e que conciliaram outras influências artísticas.


Neste momento, está a compor alguma obra?


Ao nível erudito, seria um grande esforço para mim compor uma obra de interesse e qualidade. No entanto, tenho composto canções e arranjos de temas tradicionais, desenvolvidos no âmbito do Rancho Folclórico de Paranhos da Beira e de projetos em que participei (como o apoio à direção musical e interpretação do espetáculo “Labirinto”, que estreou na cidade da Guarda em Agosto de 2018).


Maria Isabel, obrigado por ter proporcionado esta breve entrevista, cremos que a primeira a um jornal do concelho.


Sim, tem razão. Trata-se da primeira entrevista a um jornal do meu concelho. Obrigado.


(Entrevista conduzida por Carlos Manuel Dobreira)

ANNA FERREIRA DA FONSECA E O SEU LEGADO

Anna Ferreira da Fonseca nasceu a 9 de junho de 1896, em São Romão, e faleceu a 2 de abril de 1990, em Lisboa. Os seus pais foram Joaquim Augusto Ferreira da Fonseca e Maria Alfreda Rita Latham de Barros e Cunha Ferreira da Fonseca.
Teve como mestre de pintura o aguarelista Alfredo Roque Gameiro. Foi uma leitora assídua de Luís Vaz de Camões, Júlio Dinis, Charles Dickens, Georg Elliot, André Maurois, Pierre Loti e Stefan Zweig, entre outros.
No século XX, entre as décadas de 40 a 60, as celebrações religiosas na Igreja Paroquial de São Romão foram, durante cerca de trinta anos, abrilhantadas por Anna Ferreira da Fonseca, que tocava o órgão ali existente.
O Coral dos Jovens de São Romão foi ensaiado por esta senhora, participando polifonicamente (a 3 e 4 vozes) nas missas dominicais, com destaque para a Missa do Galo e em todas as cerimónias religiosas, ao longo do ano. O Coral dos Jovens de São Romão foi inicialmente constituído por raparigas, sendo mais tarde integrado por rapazes, o que o transformou num coro misto. Na época, foi classificado como um dos melhores da diocese da Guarda e objeto de gravação pela Rádio Miramar.
Num breve depoimento de Alfreda Ferreira da Fonseca, sua sobrinha, assume-se que a tia Nini (como era chamada com enorme carinho) influenciou em grande parte as gerações vindouras na Família e na comunidade de São Romão. De facto,“…há mais sobrinhos dedicados à música, como o Pedro Caldeira Cabral que é especialista em instrumentos antigos de cordas e reputado instrumentista, nomeadamente na guitarra portuguesa, e é sobrinho da minha tia Anna por ser filho da irmã dela, Alfreda Ferreira da Fonseca Caldeira Cabral. O meu irmão Henrique e o meu primo António Caldeira Cabral, o mais velho dos 9 Caldeira Cabral, ambos tocam piano, mas não profissionalmente. A minha prima Ana Caldeira Cabral (Santiago Faria por casamento) fez exatamente o mesmo que a nossa tia Anna (Nini na família): toca órgão na Igreja e ensaia o coro da terra onde vive, perto de Penacova, na Granja. Vários dos sobrinhos cantaram ou cantam em coros. A Ana Stilwell, filha do meu irmão Henrique e de Isabel Stilwell, é cantautora. De alguma forma, a Tia Nini influenciou-nos imenso a todos no que diz respeito à música.”


A 25 de junho de 1989, foi-lhe prestada uma homenagem, num Sarau Cultural, realizado no Salão da Banda da Academia de Santa Cecília e promovido pelo Coral de Jovens da Vila de São Romão, fundado em 10 de junho de 1988 e que teve vida breve. A homenageada não esteve presente, mas foi possível ouvir alguns registos magnéticos de músicas tocadas ao piano e um excerto de peça polifónica de Felix Mendelssohn Bartholdy (1809-1847), entoada pelo Coral dirigido por Anna Ferreira da Fonseca.
No dia seguinte, cerca de 40 elementos do Coral de Jovens da Vila de São Romão deslocaram-se à Casa da Família Ferreira da Fonseca para procederem à entrega de algumas lembranças. No final da visita, e já com a maior parte dos jovens no exterior da casa, Anna Ferreira da Fonseca interpretou duas composições musicais de Frédéric François Chopin (1810-1849).
(Carlos Manuel Dobreira)

«Fonte: Jornal Porta da Estrela (Seia), edição de 1 de julho de 2019), e em particular o seu Diretor José Manuel Brito»

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