Current track

Title

Artist

Current show

 

Background

NA IMPRENSA NACIONAL POESIA DE PEDRO TAMEN DITA POR JORGE SILVA MELO E LUÍS LUCAS 20 MAIO.

Written by on 19/05/2019

Em junho de 2018 a Imprensa Nacional fez uma recolha da obra poética de Pedro Tamen, uma obra iniciada em 1956 e traduzida e publicada em catorze línguas. No próximo dia 20 de maio, pelas 18.30h Jorge Silva Melo e Luís Lucas dizem poemas de Retábulo das Matérias, obra imponente de Pedro Tamen e obrigatória na biblioteca de todos os que apreciam poesia. 

Entrada gratuita.

Alguns poemas.

Não há mais céu
se ele não cai
humilde acaso
no seu lugar.
Não há melhor
nem som mais puro
que o natural
dos nossos olhos.
Não vale a pena
fazer brinquedos
se as nossas mãos
são de criança.

in Retábulo das Matérias, pág. 17

Só dos mortos devemos ter ciúmes; acordar
de entre as pedras doentes dolorosos
que da beira das arribas nos atirem ao porto
onde enfim se encontre a nossa angústia.
Só eles lutam palmo a palmo pelo espaço
em que já vertical erguemos nosso braço
em busca de que sumo ou de que céu. E que só eles
nos retiram da cama de que por nós foi feita
a escolha: a macieza intensa que julgámos
eterna, que nos parecia tão cordatamente
entregue à nossa própria suma sumaúma.
Só os mortos, horror, inda que vivos, vivem
paredes meias com os nossos dedos, logo afastam
os momentos ferozes que tocássemos, e as nuvens
por sobre o mar dos olhos: é bem feito,
dizem os meninos. Pois que dos vivos vivos
a vida nos desvia e nisso nos conduz, assaz
encaminhados pelo que vamos querendo.
Só os mortos nos mordem, nos apontam
a dedo frio e tenso, entorpecem desejos
e, pois pior, só eles nos expulsam
do vero som dos sinos numa entrega
às palavras baldadas do comércio.
A luta clara que sonhada fosse
pela mão dada e limpa que nos dessem
tropeça, polvo, com misérias nossas
e enterra-se na pérfida, agoniada leira
onde dominam eles nossas bocas e o sangue
que nelas perpassasse. Só os mortos,
invisíveis, letais, pesados entes,
nos disputam a vida, e só por fim nos matam.

in Retábulo das Matérias, pág. 417 e 418 

Sento-me na cadeira
e olho para o chão:
mesmo à minha beira
abre-se o vulcão
onde o fogo assume
sua condição
de rubro negrume
sem limitação,
sem mira que veja
onde acaba a mão
que tem a bandeja
do vinho e do pão.
Mesmo que não queira,
sorvido me sumo:
desfaz-se a cadeira
e eu desfeito em fumo.

in Retábulo das Matérias, pág. 321 

Tua palavra é longe
como de longe vejo
a luz solar que esconde
as ramas do desejo.
Mais de mim que de ti
minha palavra é longe:
roço o bronze daqui
e é mais além que tange.
Serás tão perto dela
qual eu da luz, a tua?
Termos a mesma pele
dá-nos calor da lua
que é calor de relento
entre o dia e o dia,
sabor de brando invento,
amor-telegrafia.

in Retábulo das Matérias, pág. 492 

O amor já não é o que era
concluiu apressadamente o senhor Couto
vindo à tona do sonho de que o poema é feito.
O amor já não é o que era
repete-me a árvore roçagando
horas e horas, entre as folhas perdendo
uma qualquer coisa que se juntasse a ela
e a ela acrescentasse uma qualquer lembrança
do que fosse o amor quando era o que era.
Sabe o senhor Couto que não ser o que foi
é tão fatal com ele como com o sentimento
de que avança a falar como se o sentisse?

in Retábulo das Matérias, pág. 716