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“MERCADO DOS AMORES” O MAIS RECENTE DISCO DE PEDRO MESTRE.

Written by on 10/05/2019

Pedro Mestre dá a conhecer o Alentejo no ‘Mercado dos Amores’: “O cante não era tão lento como se tornou”

‘Mercado dos Amores’ é o mais recente disco de Pedro Mestre e que sucede a ‘Campaniça do Despique’. O Alentejo é o fio condutor de um trabalho que junta tradição e renovação, novos e velhos, num aroma tradicional do Alentejo e com convidados especiais.

Neste disco, Pedro Mestre contou com a participação de José Manuel David, Tânia Lopes, Vasco Sousa, Pedro Calado, FF, Celina da Piedade, Lúcia Moniz, Grupo Coral da Casa do Povo de Reguengos de Monsaraz, Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento, Campaniça Trio (David Pereira e José Diogo Bento), Ricardo Ribeiro, Hugo Osga, Rosa Dias, Manuel Graça, Manuel Mira, Manuel Sérgio e José Colaço Guerreiro.

Por entre as 14 faixas destaca-se o repertório tradicional, os arranjos de José Manuel David e as composições de Pedro Mestre.

Em conversa com o Infocul, Pedro Mestre começa por revelar que “este ‘Mercado dos Amores’ vem no seguimento do ‘Campaniça do Despique’, porque desde muito cedo que ouvi falar do lugar, do habitat natural, onde tudo acontecia, muito antes de se falar que o cante do Alentejo é de trabalho. Tudo bem, é do trabalho, sim! Sempre foi, mas antes do Alentejo ser celeiro da nação, havia uma outra realidade e nós conseguimos comprovar isso até pelos registos que existem, poucos mas existem, em que era um cante mais vivo, menos monótono e não tão lento quanto se tornou”.

Como exemplo, relembra que “eu sou de Castro Verde, onde desde há 500 e poucos anos acontece a Feira de Castro, e sempre ouvi as pessoas mais velhas dizerem que iam à feira e aprendiam modas novas na feira. A feira durava mais de uma semana e existiam aqueles a quem se chamava trovadores, repentistas, que traziam sempre uma viola, que ninguém chamava de campaniça, que era a viola de arame, hoje campaniça, e que acompanham no despique em que se davam notícias, traziam novidades e escreviam e vendiam décimas”.

Entre o antigo e o contemporâneo, “este ‘Mercado dos Amores’ retrata algo que acontecia e que por exemplo eu chego a uma feira e encontro. Hoje ainda é possível chegar a Castro Verde, Cuba ou São Martinho das Amoreiras chegar a uma feira e ouvir alguém cantar ao despique, cantar modas ou décimas. E as pessoas entretinham-se assim. Mas nessa época era uma coisa muito procurada, eram os artistas da altura. Homens que iam para aquelas localidades um mês antes das feiras começarem e ficavam instalados em estalagens que tinham tabernas e o povo sabia que eles estavam lá e iam dar-lhes umas coroas para eles cantarem. Esses homens traziam muitas das modas que hoje são cantadas e o facto de no Alentejo se chamar modas às canções e músicas vem por aí. Porque estariam sempre em moda”.

Por entre as várias faixas, modas se preferirmos, que integram este disco, diz que “Mercado dos Amores’ é um amor não correspondido, uma moda da tradição e que eu encontrei completamente perdida, ninguém a canta. E a partir daí eu tento trazer modas que não eram cantadas. Aparece aí outra moda ‘Agora já se não usa’ que entretanto foi gravada num videoclipe [ndr: pelo grupo Os Vocalistas]” em que “a letra fala de uma tradição que se perdeu e por aí fora…”, sendo que o objectivo é apresentar “cantigas do cancioneiro que não são cantadas, que os grupos corais desprezaram e depois composições minhas, arranjos do José Manuel David, dentro daquilo que eu faço, que é como tu dizes e bem, andar em cima de uma corda, que eu acho que é uma ponte, entre a tradição e o contemporâneo. Porque eu desde muito cedo, alguém me disse que eu fazia a ponte da viola campaniça, dos velhos tocadores para a actualidade. E na verdade acho que é aquilo que é um pouco dos meus gostos, daquilo que eu me sinto bem a fazer, e aquilo que eu acho que casa bem como por exemplo juntar o didjerido com um grupo coral numa moda, ou juntar uma gaita de foles que nada tem a ver com o Alentejo. E eu acho que isso faz falta, e o facto de fazer essa junção projecta o cante numa outra dimensão, para uma outra realidade e abre novos mercados”.

Mas não se pense que existe um desconhecimento na junção de instrumentos pouco associados ao Cante, pois Pedro Mestre faz questão de frisar que “sei bem o terreno que piso. Não dou passos maiores que as pernas. Por isso tenho a certeza de que nunca irei cair. Eu sei o que faço. O facto de ter aqui e didjerido não quer dizer que o tenha de ter sempre”, explicando que quer o Didjerido quer a gaita de foles o remetem para a “planicie do Alentejo, a calma, a tranquilidade…”.

Pedro Mestre aborda ainda “outra experiência que eu fiz que foi colocar metais a acompanhar o cante. O Alentejo é rico em filarmónicas, há vilas que têm centenas de músicos que nascem nas bandas filarmónicas e isso sempre marcou a região. Mas nunca em tempo nenhum se juntou os metais com o cante. Houve uma experiência quando o Cante foi elevado a património. Mas eu tinha para mim, em mente, que há uma série de cantigas que nós cantamos que fazia sentido ter os metais. E aparece aí!”. Acrescenta que esta ideia parte pela “vertente rítmica e pela verdadeira essência das modas porque é preciso entender uma coisa, o cante transforma-se a cada dia que passa. Nós temos de perceber essa transformação. E depois temos de tentar ir perceber lá atrás como é que ele foi. E é aí que volto a referir que o cante não era tão lento como se tornou. Isto é tudo estado novo. O estado novo é que exigiu que os homens se juntassem, se agarrassem uns aos outros e agora cantem. E para obedecer aquela performance o cante passa a ter um andamento muito mais lento, muito mais cadenciado. Mas se pensarmos que antigamente os alentejanos cantavam para dançar… Os alentejanos não dançavam só slow. E os santos populares eram todos animados!”.

Na faixa ‘A Moda do Vinho’ conta com vários convidados (Ricardo Ribeiro, FF, Lucia Moniz, Celina da Piedade, Grupo Coral da Casa do Povo de Reguengos de Monsaraz) e Pedro Mestre confessa que “o vinho que sempre foi cantado, além de bebido, mas tudo é motivo para beber vinho e tudo é motivo para cantar com um copo de vinho. E dessa maneira nesta moda tinha de ter esta gente toda, pelo facto de ser um inédito, pelo facto de tentarmos fazer dela um hino a uma realidade de Reguengos de Monsaraz, que é um concelho riquíssimo na produção de vinho e também pelo facto de eu ter renovado o grupo da casa do povo com 74 anos de existência e que nos últimos dois anos me convidaram para ajudar a renovar o grupo. Dessa forma foi-nos pedido um poema popular do poeta Manuel Sérgio, de Reguengos de Monsaraz, e portanto nesta ‘Mercado dos Amores’ tinha de ter esta ‘Moda do Vinho’ porque a faina, a poda, a moda e o copo bebido tinha de se juntar num cante. E depois porque são pessoas que eu admiro. Desde muito cedo que cantei com a Celina da Piedade, desde muito cedo que admiro o Ricardo Ribeiro, a sua forma de ser e estar é fabulosa para o fado, o cante e para tudo aquilo que ele canta, depois a simpatia e registo vocal da Lúcia Moniz, a grandiosidade do FF, assim como tantos outros que poderiam estar aí”.

E termos de espectáculos Pedro Mestre anunciou ainda ao Infocul que “actuo a 25 de Junho na Feira de São João em Évora e vamos actuar no Teatro Tivoli BBVA a 29 de Outubro”.

No Tivoli BBVA assume que vai “tentar ter esses dois grupos corais, Reguengos de Monsaraz e os Rancho de Cantadores da Aldeia Nova de São Bento, que é um desafio e depois o naipe de músicos que me acompanha”. Assume que pretende “trazer este Mercado dos Amores para o palco da capital para trazer o Alentejo à capital com aquilo que tem de mais belo”.