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“AZARES DA POESIA” DE JORGE FAZENDA LOURENÇO.

Written by on 16/04/2018

“Azares da Poesia” de Jorge Fazenda Lourenço.

Os poemas, os ensaios, podem ser actos críticos, complementares? Eis a pergunta que este livro deseja, ao configurar-se como um auto-retrato, provisório e fragmentário, que explora a possibilidade de composição de um rosto no espelho-azar de outros rostos: Almeida Garrett, António Nobre, Cesário Verde, Vergílio Ferreira, Ruy Cinatti, E. E. Cummings, Armando Freitas Filho, Adélia Prado, e mais: pai, Maria do Carmo, Elvira, eros. O livro fala do modo de escrever poemas e de ler poetas, e do desejo de mundo, que é um desejo de poesia, que neles habita. Linhas e planos, traços e incisões, lugares ínfimos de uma voz que faz do acaso a sua necessidade.

 

Ruy Cinatti é um desses cidadãos do mundo que não acaba onde nós findamos. Português das sete partidas e das nenhumas chegadas, filho de sangue italiano e algarvio, macaense e transmontano, nascido em Londres, engenheiro agrónomo, antropólogo, «etno-poeta», irmão de sangue de timorenses, este nómada do inteiro-mundo, tal como o Ossobó são-tomense da sua história, que eu ouvi das suas mãos, «gostava de ver tudo. Desde muito novo que andava de vale em vale, encantando as outras aves com a sua verde plumagem e com a sua voz melodiosa. […] Chegava a um lugar e logo depois se ia embora». Assim foi, com ênfase especial para aqueles lugares onde o português ficou em lembranças repartidas. Lugares da memória que Cinatti perpetuou em poesia: Ossobó (1936), Crónica cabo-verdeana (1967), Uma sequência timorense (1970), Os poemas do itinerário angolano (1974), Timor-Amor (1974), Paisagens timorenses com vultos (1974), Lembranças para S. Tomé e Príncipe, 1972 (1979), e noutros poemas dispersos pela restante obra.
Mas, atenção, Cinatti não é um «poeta ultramarino». Os seus lugares da memória são os do seu nomadismo (de Ataúro a Sintra), não só exterior como, sobretudo, interior:

Tanta coisa para ver, 
Namorar, meter no bolso 
Da memória que é um poço 
E vagabunda, como eu.

E é desta memória vagabunda (mais até do que descritiva) que, em geral, se fazem os seus versos, nos 21 livros de poesia que publicou em vida.

 

 

‘Azares da Poesia’, da autoria de  Jorge Fazenda Lourenço, com chancela Companhia das Ilhas, tem sessão de lançamento agendada para o dia 19 de Abril, pelas 18h30, na Livraria Distopia, em Lisboa.

A apresentação estará a cargo de João Vaz de Carvalho.