“O HETERÓNIMO DE CAMÕES” DE MÁRIO MÁXIMO. UMA VIAGEM HISTÓRICA. AVASSALADORA.

Escrito por em 11/02/2018

O Heterónimo de Camões está escrito na primeira pessoa. Apenas o último capítulo tem uma estrutura narrativa. Não se trata de um romance histórico nem pretende constituir tese nessa disciplina. Diga-se, aliás, que aquilo que a história nos ensina acerca de Luís Vaz de Camões é, em boa parte, uma perfeita ficção. (…)

Nas páginas deste livro, encontramos um exercício de autointerpretação a que o poeta maior se submete de moto próprio. E esse exercício assume a forma de uma demanda permanente, por vezes obsessiva.

O seu recente romance, O Heterónimo De Camões, fala de um homem português a quem as vicissitudes da vida empurraram para uma vida em constante movimento migratório. De Coimbra para Lisboa, de Lisboa para a Índia, de Goa para Macau e depois para Moçambique e, por último de regresso a Lisboa. Mas, claro, Camões viajou por muitas outras terras e lugares.

De facto, Luís de Camões procurou o sonho e o triunfo da sua vida através de múltiplas viagens para lugares muito diferentes e distantes. De algum modo ele participava na gesta migratória a que os descobridores portugueses deram forma inicial. Mas o seu objetivo não era o de conquistar mundos; o seu objetivo era outro, embora fosse um objetivo de face dupla: encontrar um rumo para a sua vida e encontrar uma realização para o seu interior, o seu coração.

Deste modo, o autor considera que o romance O Heterónimo De Camões é um romance que tem o espírito da emigração portuguesa bem vivo, representado através do símbolo maior de Portugal.

“A inveja e o poder sem regras destroem todos que tocam. É uma infeção que pode gerar a peste interior, que mina totalmente os princípios que devem reger a vida de um homem ou de uma mulher. Mina, por vezes, todo um reino. O reino de Portugal, como tantos outros por esse mundo fora, não se furtou a uma dose reforçada de inveja e a uma quase total ausência de regras. As agruras do poder não as senti enquanto candidato a detê-lo. Não nasci de família perto do poder e, com o decorrer dos anos, fui-me afastando, nunca aproximando. Há aqueles que ficarão sempre à porta do grande repasto. Aqueles que talvez, uma ou duas vezes na vida, estejam perto do seu rei ou rainha, a quem prestarão muitas homenagens até se emocionando, pois estar na presença dos detentores do poder causa muitas emoções que, passada uma hora ou duas, apenas soam a ridículo. Mas é assim com os que não estão habituados a ufanaram-se com trajes e poses arrogantes durante a maior parte da sua vida. Comigo assim foi. Nesse capítulo, fui um súbdito tão vulgar quanto qualquer outro. Antes de entrar na câmara onde o Rei D. Sebastião me iria receber rezei, em sussurro, todas as orações que sabia e, pior do que isso, deixei que algumas lágrimas envergonhadas me corressem pelo rosto.”

(“O Heterónimo de Camões”, de Mário Máximo, Pg. 126 e 127)

 


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