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PRÉMIO CAMÕES 2017, O MAIOR GALARDÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA ATRIBUIDO A MANUEL ALRGRE.

Written by on 04/02/2018

Na hora de receber o Prémio Camões, o maior galardão da língua portuguesa, Manuel Alegre defendeu que a literatura e a poesia possam representar a “resistência contra o pensamento único”, num momento em que talvez se “necessite de novo da voz dos filósofos e dos poetas”.

“Nesta era da globalização e de um novo bezerro de ouro, em que o poder financeiro impõe a sua hegemonia sobre a política, a democracia, a cultura e os próprios Estados, a literatura e, em especial, a poesia, podem ser ainda um território de resistência contra o pensamento único e de defesa da liberdade de escolha de cada povo”, afirmou Manuel Alegre.

Na cerimónia no Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, Alegre recebeu o prémio das mãos do primeiro-ministro, António Costa, do embaixador do Brasil em Lisboa, Luiz Alberto Figueiredo Machado, e do ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes.

“Por mais estranho que pareça, o povo anda na rua a falar Camões. Fala nas ruas de Portugal. Mas também nas ruas do Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné, Timor e São Tomé e Príncipe. Não tem consciência disso, não sabe que há um Acordo Ortográfico e também não precisa dele. Mas fala Camões, quero dizer: fala a Língua Portuguesa”, disse Manuel Alegre.

O poeta e escritor lembrou que o Português “anda pelos cinco continentes, língua de diferentes identidades e culturas, em que as vogais, não têm todas a mesma cor. E em que as consoantes, como se sabe, em Portugal assobiam, na África cantam e no Brasil dançam”.

Depois da cerimónia, o ministro da Cultura disse que a Academia das Ciências de Lisboa indicou para a lista do Nobel de Literatura os nomes de Agustina Bessa-Luís e Manuel Alegre, mas o poeta prefere não abordar o assunto.

“A minha amiga Sophia dizia não se devia pensar em prémios pois fazia mal à cabeça”, ironizou Alegre.

No discurso de elogio a Manuel Alegre, o primeiro-ministro, António Costa destacou o histórico socialista como uma voz “politicamente indomável”, porque “poeticamente livre”.

“Para além e para aquém da resistência política que nesta obra se afirma, ela é, no entanto, antes e depois disso, uma obra de resistência poética. Daí a sua vibração, a sua veemência, a sua validade. Com os seus poemas e a voz que deles nasce, Alegre desafiou poderes, denunciou crimes, comunicou esperanças, deu notícias de júbilo e de tristeza, levantou ânimos, exaltou e empolgou multidões, unidas ou dispersas”, argumentou António Costa.

“O Canto e as Armas” é “o livro de uma geração, mas também um livro que se prolongou no tempo, enquanto voz de esperança numa pátria livre, e de denúncia da opressão política da ditadura salazarista, da guerra colonial, da emigração e do exílio a que muitos portugueses, como o próprio poeta, foram condenados”, assinalou o grupo editorial LeYa, em abril último, quando do lançamento da edição comemorativa dos 50 anos desta obra.
Passou 10 anos exilado em Argel, e sua voz ao microfone da rádio “A voz da liberdade” converteu-se num símbolo de resistência e liberdade. Seis poemas, cantados por muitos músicos portugueses, tornaram-se emblemáticos da luta pela liberdade. Em maio de 1974, voltou a Portugal e entrou no Partido Socialista onde, ao lado de Mario Soares, promoveu grandes mobilizações populares que consolidaram a democracia e a aprovação da Constituição de 1976.
Foi deputado, vice-presidente da Assembleia da República e candidato a presidente em 2011. É uma personalidade muito prestigiada e muito bem considerada, mesmo por aqueles que não são da sua família política. Sua estreia na ficção foi em 1989,  com Jornada de África, e hoje tem uma vasta obra literária, traduzida e publicada em diversos países”.

Manuel Alegre nasceu em Águeda, Portugal, em 1936. Foi o primeiro português a receber o diploma de membro honorário do Conselho da Europa. Entre outras condecorações, recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (Portugal), a Comenda da Ordem de Isabel a Católica (Espanha) e a Medalha de Mérito do Conselho da Europa.

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